quinta-feira, 6 de março de 2008

Quando


Hoje foi dia de arrumações de papéis.

Aquelas que se começam e invariavelmente ficam a meio.
Nunca vi uma acumulação de tanto papel em tão pouco tempo nesta minha vida.

Como sempre tiro os papéis dos bancos, das contas, dos médicos e ficam para variar aqueles que nunca sabemos se guardamos para recordação ou se deitamos fora.

Olhamos, matamos saudades, deitamos alguns fora acrescentamos outros, baralhamos pomos por ordem e guardamos da mesma forma como os encontrámos.

Hoje dei com os olhos num papel lindo de morrer dentro de uma mica transparente.

Fui ler.

Dei-me conta de que era um poema da Sophia de Mello Breyner, que foi adaptado em homenagem à minha mãe, quando morreu.

Foi escrito/adaptado por um grande amigo dela e foi-nos dado no dia em que fez um ano que tinha morrido.
Confesso, que na altura li, chorei, e como tudo o que me faz mal, pus de parte e nunca mais olhei.

Hoje, quando dei de caras com ele, achei tão bonito, tive tantas saudades, que senti que o devia

partilhar de mim para “comim”, aquilo que ela deveria ter adorado.


"Quando

Quando o meu corpo apodrecer e eu for morta
Continuará o jardim, o céu e o mar,
E como hoje igualmente hão-de bailar
As quatro estações à minha porta.

Outros em Serpa passarão no monte
Em que eu tantas vezes passei,
Haverá longos poentes no horizonte,
Outros amarão as coisas que eu amei.

Será o Trilho, o mesmo arado
Será a mesma buganvília à minha porta,
E os cabelos dourados do montado,
Como se eu não estivesse morta.”

2003 – 4 de Agosto – 2004
(Adaptação de AA de um poema de Sophia de Mello Brayner)


Escusado será dizer que os papéis assim ficaram. Desta vez mais desarrumados do que nunca.

Aqui vai o original


“Quando

Quando o meu corpo apodrecer e eu for morta
Continuará o jardim, o céu e o mar,
E como hoje igualmente hão-de bailar
As quatro estações à minha porta.

Outros em Abril passarão no pomar
Em que eu tantas vezes passei,
Haverá longos poentes sobre o mar,
Outros amarão as coisas que eu amei.

Será o mesmo brilho, a mesma festa,
Será o mesmo jardim à minha porta,
E os cabelos doirados da floresta,
Com se eu não estivesse morta.”

(Sophia de Mello Breyner Andresen in Dia do Mar)

2 comentários:

av disse...

Que coisa tão bonita, Sum! O poema da Sophia é lindo, mas a adaptação não lhe fica atrás. E sobretudo o motivo por que foi adaptado, é uma ternura. Agora lembrei-me também da minha mãe, e de como gostava de tê-la ainda cá.
Um beijinho
ana

sum disse...

Mais uma vez obrigada Ana.

Pelas suas palavras e pela sua maneira de se por do meu lado.

Mãe de facto há só uma, e faz-nos tanta falta...