segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Quando o Coração se Fecha


Há alturas em que o coração sente necessidade de se fechar.

Parece que o mundo a nossa volta fica a pairar e não assenta. Nada do que se passa tem a ver connosco. 

Se nos tornarmos invisíveis tanto melhor. 

Não há sentimento que entre, não há musica que se oiça ou cheiro, ou som, ou sabor, que nos avive a memória. Todo o nosso corpo evita entrar em confronto com o que quer que venha do passado, presente ou futuro. 

Não há lágrima fácil, não há reação, não há sentimentalismos nem emoções no ar.

O medo fecha a porta. A vontade desaparece e entra uma frente gelada e cinzenta que nos faz cerrar os dentes, fechar a boca e olhar em frente. 

As conversas e os passos são mecânicos, abruptos e compulsivos, arrastam-nos para a frente sem olhar para o caminho que fazemos.

O coração fica impenetrável.

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Estar ao lado de alguém que não fala



“Estar ao lado de alguém que não fala, é como estar ao lado de algo inerte, a quem nos parece que passa tudo ao lado. Gera-nos insegurança, porque quem não fala, não se dá a conhecer, e ao mesmo tempo alguma antipatia, porque não falar pode significar não querer dar confiança. Ouço o silencio, mas não no entendo, por isso escancaro as portas as portas do silencio. Encontro pessoas com medo de falar, pessoas com baixa auto estima, pessoas inseguras, mas em todas elas há um traço comum: a solidão. Sente solidão aquele fisicamente está sozinho, mas também aquele que não fala. Por isso nunca se cale, e ajude os outros a falar.”  Francisco Salgado

Ontem li este texto que fala de como nos sentimos quando estamos ao lado de alguém que não fala. Quantas e quantas vezes isto não me aconteceu. Alias parece que sempre vivi deste lado. Sentimos muita, mas mesmo muita insegurança, desconforto e alguma solidão. Insegurança porque não conseguimos conhecer, saber, ter cumplicidade, logo não conseguimos ser nós. Desconforto porque para alem de tudo o que já foi referido não conseguimos ter aprovação e deixamos de ter chão, Solidão porque de repente estamos sozinhos em “orbita” a dar tudo por tudo sem receber absolutamente nada. 

Estes sentimentos geram muita tristeza e comportamentos estranhos, comportamentos que não reconhecemos em nós e, numa “bola de neve”, apanhamo-nos em situações que nunca na vida imaginaríamos que pudessem ser reais.

Falar, para mim sempre foi banal. Diria mesmo que muito vulgar. Falar sobre tudo e muito, proporcionou-me tantas vezes o estatuto de loira burra. Mas eu sempre assumi. Quando se fala muito diz-se muitas asneiras mas também gera muitos momentos de alegria e boa disposição, cria empatias e geralmente grandes cumplicidades. Nunca me dei por vencida, nunca parei, mesmo quando me diziam que deveria. 

Mas hoje, finalmente cai em mim e apercebi-me que deixei de falar.

Não foi certamente pelo estatuto de loira burra, digo eu, pois esse eu sempre aguentei bem. Nem todos podemos ser iguais, há os mais e os menos e eu nunca entrei em guerras, não me aflige ser menos, sinto-me bem pior quando me sinto mais.

Assim o porquê, não sei. Não sei o quê ou quem me levou a vontade, mas o facto é que deixei de falar e, o pior é que cada vez me sinto mais calada. Não falar, não implica só ser-se mais sozinho e mais triste, implica também menos conhecimento, chegar a menos pessoas, parar na aprendizagem da vida. 

E sempre ouvi dizer que parar é morrer.

Cheguei à conclusão de sempre, bom mesmo é as coisas acontecerem quando têm que acontecer e ter lido este texto ontem abriu-me o espírito. É preciso combater. Ora então vamos a isso.

"A maior doença do Ocidente hoje não é a lepra nem a tuberculose; é ser indesejado, não ser amado e ser abandonado. Nós podemos curar as doenças físicas com a medicina, mas a única cura para a solidão, para o desespero e para a desesperança é o amor. Há muitas pessoas no mundo que estão morrendo por falta de um pedaço de pão, mas há muito mais gente morrendo por falta de um pouco de amor. A pobreza no Ocidente é um tipo diferente de pobreza – não é só uma pobreza de solidão, mas também de espiritualidade. Há uma fome de amor e uma fome de Deus."
Madre Teresa de Calcutá

sexta-feira, 15 de julho de 2016

A nossa paz interior é sagrada


É estranho quando as verdades nos entram pelos olhos a dentro sempre que precisamos de as ouvir.
Hoje entrei na garagem cheia de pressa, carreguei no botão de chamamento do elevador e esperei pacientemente. O tempo de espera foi tão grande para a quantidade de coisas que ainda tinha para fazer e para a minha falta de paciência que ultimamente se esgota por nada, que comecei a ficar mesmo irritada e soltei em surdina um palavrão qualquer.
Foi então que o senhor asiático, que esperava como eu o elevador, olhou para mim, viu o meu desespero e muito calmo e com o ar mais simpático deste mundo, disse – “ A nossa paz interior é sagrada, não a percas com estas coisas!”. Foi tão certeiro que fiquei, muito loira, sem expressão a olhar para a porta do elevador. Vá lá que ainda tive reação para fazer um sorriso amável e agradecer a dica. E não é que a razão estava mesmo do lado dele.
Fez-me ficar a pensar até agora, que raio de coisas ou situações merecerão a perda da nossa paz?
Ainda não me surgiu nenhuma.

quarta-feira, 29 de junho de 2016

Também eu tenho uma História


Também eu tenho uma história.

Uma história que se pode contar e outra que devo manter para mim, como toda a gente. E ainda tenho uma história contada e outra por contar. 

E podia continuar, pois ainda como toda a gente, tenho pequenas histórias engraçadas e pequenas histórias tristes, grandes histórias que me fazem rir e outras grandes histórias que fazem pensar, há a história de amor e as outras, as que me fazem saudades e as que gostaria de ver longe, as que me lembro e as que quero esquecer, as que trago comigo sempre e que vou deixando aqui e ali.

Enfim, afinal parece-me que sou muito comum, sou como toda a gente.

Chego à feliz conclusão que as histórias repetem-se. A minha não é diferente. A única coisa que tem diferente é ser eu e não outra qualquer. 

sábado, 2 de abril de 2016

Nim



Nim, é como eu defino algumas fases da vida em que se vive por viver e onde não existe intensidade, novidade, paixão, força...

Fica a faltar uma parte de nós. 

A parte que se empenha, que se esforça, que tem vontade de ver, de ouvir e conhecer coisas novas, a parte que se sai do conforto do dia-a-dia e se arrisca, a parte em que realmente sentimos que estamos vivos. 

Nim é o que existe mais por aí. Vem de dentro em forma de vontade ou melhor, falta dela. 

O pior é que, quando chega, chega devagarinho e instala-se de pés cruzados de cigarro na boca encostado a uma esquina à espera que saia e não há como faze-lo arredar pé.




quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

A outra maneira de ver a vida

Há sempre outra maneira de ver a vida.

O grande desafio é tentar descobrir esse outro lado.

É raro chegar-se lá sozinho, mas entre amigos, leituras, meditações e algum treino, nada que não se consiga.

Hoje descobri este texto:

“Podes chorar por ela ter partido, ou podes sorrir porque ela viveu.
Podes fechar os olhos e rezar para que ela volte, ou podes abri-los e ver tudo o que ela deixou.
O teu coração pode estar vazio porque não a podes ver, ou pode estar cheio do amor que partilharam.
Podes virar as costas ao amanha e viver o ontem, ou podes ser feliz amanha por causa do ontem.
Podes lembrar-te dela apenas porque partiu, ou podes guardar a sua memória e deixa-la viver.
Podes chorar e fechar a tua mente, tornar-te vazio e virar as costas, ou podes fazer o que ela gostaria que fizesses: Sorri, abre os olhos, ama e segue em frente”

Não sei de quem é, mas fez-me sorrir e perceber o outro lado de tudo aquilo que eu estava a sentir.

A partida seja de quem for que tenha feito parte da nossa vida, tem o seu lado muito bom que é composto de todos os momentos em que esteve presente e é dando vida ao que aprendemos e ao que vivemos em conjunto nesses momentos, que a nossa própria vida começa a fazer sentido.
O português correcto falha-me nestas alturas, mas que se lixe o português, fiquei feliz com a descoberta.
É legitima a tristeza, é legitima a falta que nos faz, é legitimo o vazio, mas é legitimo também tantas coisas boas vividas, tantas alegrias, tanto preenchimento, tanto amor. Todos sabemos que nascer significa um dia morrer e que é no meio de um e do outro que a nossa vida enriquece e toma corpo.
Lá vem a minha frase de eleição e, desta vez, com outro sentido ainda maior:

“Aqueles que passam por nós, não vão sós, não nos deixam sós. Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós.  “
Antoine de Saint-Exupéry

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Dizer o quê?


Há dias em que tudo é claro. O que é importante e o que não é, o que queremos e o que não queremos, o que precisamos e o que nem por isso, quem queremos ao lado e quem queremos longe, quem se poe ao fresco e quem está verdadeiramente do nosso lado, quem se preocupa e quem só olha para o seu umbigo.

Desilusões… Ou nem por isso, somente a aceitação do que é e, confesso, até com uma certa indiferença.

O tempo vai passando e os ensinamentos vão-se acumulando. A vida ensina-nos que acreditar no ser humano, vai sendo cada vez mais difícil.

Não é triste, é a vida! Não adianta chorar sobre os factos, adianta não esperar das pessoas, aquilo que elas não são capazes ou não querem dar.

No entanto, aprendi que, aquilo que os humanos não conseguem dar, os animais encarregam-se de o fazer de uma forma incondicional e absolutamente verdadeira. É o verdadeiro “até que a morte nos separe”.

Infelizmente eles separam-se de nós muito antes do que gostaríamos e deixam-nos o sabor amargo na boca de não ter conseguido chegar aos calcanhar em tudo o que tínhamos para lhes dar e uma saudade eterna do seu gostar puro, duro e incondicional e da sua companhia insistente, persistente e até por vezes obstinada.
Vou morrer de saudades!