O ponto alto de ontem: dei sangue.
Ponto alto do dia ser dar sangue até a mim me faz rir. Mas é verdade. Foi mesmo o ponto alto do dia, da semana ou até mesmo do mês.
É uma história que já vem de longe e que vem sendo alimentada ao longos de todos estes anos por variadíssimos veredictos desfavoráveis.
Em tempos os meus tios e o ,eu Pai pediram-me para dar sangue. A minha Avó de Pai estava muito doente e precisava de uma transfusão. Segundo parecia o meu sangue era compatível com o dela. Acontece que depois de análises, questionários, assinaturas, etc, o médico optou por não me deixar dar o meu contributo.
Ao que consta, um antibiótico tomado foi o culpado. Este episódio teria corrido mais ou menos bem, não fosse a minha Avó ter morrido por essa altura sem ter feito a transfusão.
Ora, não que me sinta directamente culpada mas lá que fiquei com uma comichão atrás da orelha, não posso negar.
A partir daí tentei inúmeras vezes dar sangue, mas nunca fui aceite, por esta ou por aquela razão. Comecei a achar que era a minha sina, querer tanto e não conseguir. A minha frustração foi crescendo, até que um dia decidi, cheia de convicção, ser dadora de qualquer coisa. Dirigi-me ao banco de dadores de medula óssea. Sorte das sortes, depois da parafernália de perguntas e exames, lá me acharam apta e fiquei registada no banco. Que orgulho que eu senti de mim!
Dar sangue tornou-se num assunto tabu.
Até que um dia, numa das muitas iniciativas da minha empresa, apareceu uma equipa do Instituto Português do Sangue para fazer recolhas. A medo aproximei-me, mais uma vez respondi à catrefada de perguntas exigidas, sujeitei-me aos exames impostos e fui à consulta obrigatória ouvir o veredicto final. Para meu espanto a médica disse que eu estava apta para ser dadora. Fiquei momentaneamente sem reacção, meia incrédula e com os olhos cheios de lágrimas. Finalmente tinha conseguido. Nesse dia, verdadeiramente feliz, festejei, sozinha mas festejei.
Hoje voltou a acontecer. Foi com orgulho que me deitei naquelas camas e assisti, nervosa, a todo o processo, do princípio ao fim, sem fechar ou desviar os olhos.