domingo, 30 de março de 2008

Decisões


Tomar decisões sérias e que implicam com os nossos sentimentos, leva o seu tempo, consome-nos e tira-nos anos de vida.

As decisões de que falo são as que nos magoam, só de pensar. São consequentes de situações que se arrastam por vezes durante anos. Andam para trás e para a frente e não as conseguimos deixar de uma vez. Um dia é sim, outro dia é não, mas sabemos de antemão que nada, nem ninguém, nem mesmo toda a nossa vontade, vai mudar o rumo do que tem, inevitavelmente, de acontecer. Estas situações fazem-nos sofrer, fazem-nos tentar mudar, fazem-nos deixar de ser quem somos e consequentemente deixar de ter uma vida.

Faço um paralelo com a minha decisão de deixar de fumar.

Foram anos a pensar no assunto.

Tenho de deixar de fumar.

Naaaa... Nunca vou conseguir! São quase 30 anos de vício, um vício que eu adoro, que me sabe pela vida, quando acabo uma refeição, quando tomo um café, quando converso com um amigo.

Tenho de deixar de fumar.

Fumar faz mal, tem consequências irreversíveis, para além de deixar o cabelo baço e a pele sem brilho, as unhas fracas e de alterar o paladar. Mas como vou conseguir? É preciso ser forte, já não se aguenta o hálito, o cheiro a fumo frio que fica na casa, na roupa, no cabelo.

Tenho de deixar de fumar.

Humm!… Eu gosto tanto, vai ser impossível, posso sempre reduzir, tentar fumar só 10 por dia.

Tenho mesmo de deixar de fumar.

Já está provado que não faz bem, provoca uma série de maleitas que não vêm nada a calhar. Sim, é verdade mas se deixar de fumar o que faço com as mãos? Sempre as mãos. Nunca sei o que fazer com elas. O que me acalma, quando estiver nervosa? O que vou buscar à carteira quando tento disfarçar de alguma coisa? Como paro o meu raciocínio? Como me consigo concentrar? Que se lixe, amanha logo deixo.

E assim se passaram anos. Até que um dia, de mim para mim disse: - Deixo de fumar daqui a 3 dias.

Chorei durante os três dias inteirinhos. E no dia em que deixei de fumar, senti que um mundo inteiro se abriu à minha volta. Até as mãos arranjaram uma ocupação.

Conclusão, foram anos de agonia disfarçada. Anos a saber que deixar de fumar era a única decisão acertada e inevitável. Mas que dor!...

Até ao dia, o grande dia. O dia em que senti orgulho de mim, da minha decisão.

O dia em que toda a minha vontade minimizou a dor do meu pensamento.

Foi preciso muito jogo de cintura, e algumas dicas preciosas.

De todos os bons conselhos que tive, o que mais me ajudou e o que levei mais a sério foi, “As grandes decisões, precisam de grandes mudanças de hábitos”.

Assim, mudei de lado na cama, alterei toda a minha rotina matinal, até o menu do pequeno-almoço. Alterei o percurso da ida para trabalho, as musicas que ouvia, mudei de champoo, de pasta de dentes, de sabonete (os cheiros). Mudei as rotinas. Deixei de beber café.

Mudei um sem número de coisas que me faziam lembrar outro sem número de coisas.

Esta solução ajudou-me de três maneiras, ocupou-me o tempo, a tentar arranjar novos caminhos, abriu-me novas portas, deu-me oportunidade de ver outras coisas, e ao sair da rotina deixei de ter pensamentos habituais.

Aprendi que quando se fecha uma porta logo de seguida se abre outra e mais outra e mais outra. Os horizontes alargam-se. Parece que há um mundo inteiro à nossa espera.

Quando se decide de coração ele abre-se para o mundo.

2 comentários:

av disse...

É verdade, Sum, pode custar muito mas depois é uma libertação e uma vitória. Deixei de fumar há 9 anos e foi a melhor coisa que fiz, embora ainda hoje me apeteça um cigarro, de vez em quando. Mas nem lhes toco, porque sei que no dia seguinte estaria a fumar outra vez.
Beijinho

sum disse...

É que é mesmo. Pequenos gostinhos que vamos arrecadando. Não sem custo, mas com muito orgulho.
Também a mim me apetece fumar de vez em quando um cigarro e só passou 1 ano e meio.
Beijinho