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quinta-feira, 28 de junho de 2012

Ainda o Estado de Espirito


Sempre que o meu estado de espírito está de pernas para o ar e que um deserto grande se instala, sempre que estou dormente e sem saber o que pensar, sempre que as palavras não me saem porque não sei o que sentir, eu encontro em Fernando Pessoa um aconchego. As suas palavras embalam-me, acompanham-me e tiram-me de um vazio que nem eu sei muito bem como e onde se gerou.


"Assim como falham as palavras quando querem exprimir qualquer pensamento,
Assim falham os pensamentos quando querem exprimir qualquer realidade.

Mas, como a realidade pensada não é a dita mas a pensada,
Assim a mesma dita realidade existe, não o ser pensada.
Assim tudo o que existe, simplesmente existe.
O resto é uma espécie de sono que temos,
Uma velhice que nos acompanha desde a infância da doença."
(Alberto Caeiro)

quinta-feira, 1 de março de 2012

O que for, quando for, é que será o que é.


"O que for, quando for, é que será o que é"  - Será que há palavras melhores para dizer que tudo tem uma hora, tudo tem um dia, tudo tem um perceito, o que for será e contra isso nada há a fazer e que, independentemente do que se passa conosco, o mundo continua a girar e o Sol continua a nascer todos os dias?
 
"Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.
Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma
Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.
Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.  
O que for, quando for, é que será o que é. "

(Alberto Caeiro)

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Solidão




Há qualquer coisa que me está a escapar.
As pessoas já não são as mesmas, as conversas estão diferentes, a disposição não é igual.
Mesmo a minha visão sobre o mundo que me rodeia começa devagarinho a mudar.
Aquilo que parecia ser, já não é. O que parecia seguro, morreu de velho. O bonito virou escuro. Não se fala, rosna-se.
Ontem quando amanhecia resplendecia, o que nascia era verdadeiro. Hoje o brilho está a desaparecer e já nada nasce, a surpresa deixou de nos pegar e a ingenuidade virou doença.  Tudo o que existe é velho e feio e, se é novo, é incipiente.
Tudo parece de plástico, descartável, frágil. O conceito virou “Usar e deitar fora” em todos os aspectos até mesmo com as pessoas e com os próprios dos sentimentos. Nada importa, nada conta, nada mexe. A preocupação de cada pessoa é ela própria e nada mais cabe no seu mundo. Deixou de haver o pensar nos outros, deixou de haver a preocupação por quem está ao lado. Aquela magia que nascia dentro de nós quando partilhávamos alegrias e tristezas, dores e gargalhadas, trabalhos e caminhadas é coisa rara de se ver. Já ninguém constrói em conjunto, partilhar já não é palavra de ordem pura e simplesmente porque ninguém para.
A vida corre como um rio, as margens hoje são umas, amanha são outras. É irrelevante passar por estas ou por aquelas. É preciso correr, porque na ânsia de se ser feliz, a pressa é a de chegar. Onde? Pois... Onde... Ninguém sabe, ninguém conhece, ninguém viu.
Mas eu vi. Eu vi a minha Avó feliz, eu vi a minha família viver, eu senti a vida a correr dentro de mim, eu fiz parte da construção que alguém cimentou e uniu. Eu vi. Eu senti. Eu falei, eu fui muro, fui janela, passei pela porta de alguém, sentei-me num banco e ouvi, e esperei, estive, participei, ri, partilhei, parti e reconstrui, chorei e falei, cai e levantaram-me. Eu fiz parte, eu também ajudei a construir. Juntos víamos o fundo do mar, fazíamos a nossa história, construíamos os nossos sonhos.
Agora não consigo conceber o mundo como ele está, não consigo digerir o que me rodeia, não consigo ver para além de hoje. O limite é ontem, não há sonho que persista nem fantasia que resista . A solidão aumenta, a tristeza anda estampada pelas ruas.
Viver não é correr é sentir.
Viver não é descartar é enfrentar.
Viver não é largar é agarrar.
Viver não é calar é falar.
É difícil viver sem sentir. É difícil sentir sem viver. 


“A Noite É Muito Escura É noite. A noite é muito escura. Numa casa a uma grande distância
Brilha a luz duma janela.
Vejo-a, e sinto-me humano dos pés à cabeça.
É curioso que toda a vida do indivíduo que ali mora, e que não sei quem é,
Atrai-me só por essa luz vista de longe.
Sem dúvida que a vida dele é real e ele tem cara, gestos, família e profissão.

Mas agora só me importa a luz da janela dele.
Apesar de a luz estar ali por ele a ter acendido,
A luz é a realidade imediata para mim.
Eu nunca passo para além da realidade imediata.
Para além da realidade imediata não há nada.
Se eu, de onde estou, só veio aquela luz,
Em relação à distância onde estou há só aquela luz.
O homem e a família dele são reais do lado de lá da janela.
Eu estou do lado de cá, a uma grande distância.
A luz apagou-se.
Que me importa que o homem continue a existir? “

Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"
Heterónimo de Fernando Pessoa

sábado, 1 de janeiro de 2011

Antes o Vôo da Ave





Em Noites de pouca Lua:

"Antes o vôo da ave, que passa e não deixa rasto,
Que a passagem do animal, que fica lembrada no chão.
A ave passa e esquece, e assim deve ser.
O animal, onde já não está e por isso de nada serve,
Mostra que já esteve, o que não serve para nada.
A recordação é uma traição à Natureza,
Porque a Natureza de ontem não é Natureza.
O que foi não é nada, e lembrar é não ver.
Passa, ave, passa, e ensina-me a passar!"

Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos - Poema XLIII"
Heterónimo de Fernando Pessoa

sexta-feira, 4 de junho de 2010

O meu Olhar

O Meu Olhar

"O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de, vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...

Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender ...

O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar ...
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar..."

(Alberto Caeiro)