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sábado, 13 de novembro de 2010

Esta Velha Angústia


As minhas palavras andam curtas e poucas. Como dizia o pediatra dos meus filhos: “Há alturas em que eles crescem e não engordam e há alturas em que eles engordam e não crescem”.

Ensinou-me que cada coisa tem o seu lugar e a sua vez.

Ou falo ou oiço, ou estou calada e observo ou estou animada e vivo, ou escrevo ou leio, ou …

Em fase de ler, de aprender, de crescer, de estar no meu canto com as minhas coisas, na minha vida, comigo, sozinha… vou-me apercebendo de tudo o que me rodeia, de tudo o que está feito, da beleza das coisas que me envolvem. Encontro coisas que me excedem, que me dão vida, que me exultam, que me fazem sentir grande, que me fazem respirar fundo e andar em frente.  

Apercebo-me também que enquanto vejo e aprecio a vida, ela não me magoa, não me engana.


“Esta velha angústia,
Esta angústia que trago há séculos em mim,
Transbordou da vasilha,
Em lágrimas, em grandes imaginações,
Em sonhos em estilo de pesadelo sem terror,
Em grandes emoções súbitas sem sentido nenhum.

Transbordou.
Mal sei como conduzir-me na vida
Com este mal-estar a fazer-me pregas na alma!
Se ao menos endoidecesse deveras!
Mas não: é este estar entre,
Este quase,
Este poder ser que...
Isto.

Um internado num manicômio é, ao menos, alguém,
Eu sou um internado num manicômio sem manicômio.
Estou doido a frio,
Estou lúcido e louco,
Estou alheio a tudo e igual a todos:
Estou dormindo desperto com sonhos que são loucura
Porque não são sonhos.
Estou assim...

Pobre velha casa da minha infância perdida!
Quem te diria que eu me desacolhesse tanto!
Que é do teu menino? Está maluco.
Que é de quem dormia sossegado sob o teu teto provinciano?
Está maluco.
Quem de quem fui? Está maluco. Hoje é quem eu sou.

Se ao menos eu tivesse uma religião qualquer!
Por exemplo, por aquele manipanso
Que havia em casa, lá nessa, trazido de África.
Era feiíssimo, era grotesco,
Mas havia nele a divindade de tudo em que se crê.
Se eu pudesse crer num manipanso qualquer —
Júpiter, Jeová, a Humanidade —
Qualquer serviria,
Pois o que é tudo senão o que pensamos de tudo?

Estala, coração de vidro pintado! “

(Álvaro de Campos, in "Poemas" - Heterónimo de Fernando Pessoa)